Quando minha mãe se separou do meu pai fomos morar com minha avó, que me apresentou uma amiga que a filha sofreu de meningite aos 4 anos de idade e ficou com sequelas. Ela apresentava dificuldade de aprendizagem, fala, se locomovia apenas com os joelhos apoiados e não possuia movimentos em uma das mãos.
Quando nos conhecemos eu tinha 10 anos e confesso que o primeiro sentimento que me arrebatou foi pena.
Como sempre fui muito estudiosa, por convite da mãe da garota, eu comecei a visita-la todos os dias para que eu a ensinasse ler e escrever, como na época eu estava muito solitária, não conhecia muitos amigos no bairro, aceitei. Não sei se por mais pena de mim, ou dela.
Todas as tardes, ou no mínimo 3 vezes na semana eu fazia uma visita para L., passava aulas que eu aprendia e compartilhava coisas do meu mundo.
Para meu espanto, L. começou a compartilhar coisas do mundo dela, mundo esse que não passava das escadas de seu prédio, que era até onde ela conseguia chegar, mas cada centímetro por onde ela ela andava possuía quilometros de curiosidades que eu nunca havia percebido.
Com o passar do tempo e com a intimidade da amizade que cultivamos, percebi que L. era muito sábia, contava historias interessantes, sabia costurar na máquina as roupas para suas bonecas, fazia crochê e bolos maravilhosos, fora sua coleção de moedas... Descobri que L. era demais! Álias, ela era bem mais que eu, ela não conhecia o sentimento de pena, ela não tinha pena de mim, nem dela. L. é Radical!!! Eu diria hoje.
Meses depois de conhece-la como PESSOA e não como deficiente físico, eu não me atrevi a passar mais tarefas escolares para ela, afinal, não poderia ensinar quem sabia muito mais que eu.
Ela sim, me ensinou muita coisa; E uma das coisas mais instigantes que ela me ensinou foi quebrar o espelho de Narciso. Eu não tinha mais pena de L. eu a invejava. Ela não precisava de escola, aprendia vivendo.
Ontem a Profª da Luiza comentou que uma das amigas que ela mais gosta tem uma doença degenerativa e por isso algumas dificuldades para andar, falar e brincar, mas Luiza é muito inclusiva e não se incomoda com essas dificuldades, sempre procura conversar com a amiga, coloca-la na brincadeira com outras crianças, sentar na mesma mesa e ajuda-la quando precisa se levantar.
Luiza nos seus 2 anos também não conhece o sentimento de pena, e já sacou que é "normal" ser "diferente" e que o diferente pode ser muito especial.
Afinal, será que o normal existe?
Que bom que você entendeu cedo minha filha, bem antes de mim que só percebi aos 10 anos.
Continue respeitando as diferenças e limitações dos seus amigos, porque depois que eu conheci L. aprendi que todos nós que nos rotulamos "normais", somos mais limitados do que imaginamos, e principalmente entendi que deficiência não é sinônimo de fraqueza.
"L. continua muito ativa, depois de algum tempo começou a frequentar escola, ainda faz bolos e crochê, hoje tem 42 anos, e namora um rapaz da associação que frequenta".
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2 comentários:
Que lindo tudo isso, Jen. Lindo mais ainda do jeito sensível que vc conta...
Como diz uma campanha aqui em Campinas, ''Ser diferente é Normal''
Beijos
Há muita gente que faz a diferença...
Parabéns!
venha fazer parte do meu blog tb.
Beijocas carinhosas
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